Revista Cult » Foucault Entre Nietzsche, Marx e Walter Benjamin

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  • 30/6/2014 Revista Cult Foucault entre Nietzsche, Marx e Walter Benjamin

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    Foucault entre Nietzsche, Marx e Walter Benjamin impossvel fazer histria sem utilizar sequncias infindveis de conceitos ligados ao pensamento de Marx

    TAGS: Ernani Chav es, Marx, Michel Foucault, Nietzsche, Walter Benjamin

    Ernani Chaves

    H exatos quarenta e um anos, na Primeira Conferncia de A verdade e as formas jurdicasproferidas, como sabemos, na PUC do Rio de Janeiro, pouco cauteloso, de certo modo, peculiaridade da situao poltica brasileira e do papel desempenhado naqueles anos pelomarxismo como forma de resistncia ditadura, Foucault foi absolutamente implacvel: elecritica com bastante virulncia o marxismo acadmico, universitrio, que resolvia aquesto das relaes entre condies econmicas e prticas de subjetivao por meio dessaespcie de frmula explicativa conhecida como teoria do reflexo ou da expresso. Mesmoque, precavido, ele tenha restringido sua declarao Frana e Europa, ela foi suficiente parasuscitar no apenas um debate, mas tambm uma desconfiana de que nos encontrvamosdiante de um anti-marxista resoluto. Na discusso que se seguiu ltima conferncia,dominada pelo debate com Hlio Pellegrino, respondendo a uma interveno que associavasuas anlises a uma espcie de crtica da ideologia, Foucault volta a se posicionarenfaticamente contra essa ideia referindo-se, novamente, a uma interpretao tradicional, ainterpretao dos marxistas. E assim, o prprio Foucault marcava, com certa clareza epreciso, sua distncia e afastamento do marxismo. O que significava, tal como podemos hojeclaramente perceber, um afastamento de algumas teses de Althusser, seu ex-professor e amigopessoal, que ele abraara na sua juventude e que estavam presentes na Histria da loucura.Mas tambm um posicionamento que refletia o debate tipicamente francs, ainda decorrentedo maio de 1968, a propsito das posies polticas no campo da esquerda radical. Para dar umexemplo desta situao peculiar, basta, mais uma vez, lembrarmos da famosa cena de Achinesa, de Godard, na qual Les mots et les choses alvo, literalmente, do dardo disparadopelo estudante maosta.

    Esse afastamento significava, por outro lado, uma aproximao com Nietzsche. Mas no maiso Nietzsche dos textos da dcada de 1960, enredado nas questes relativas linguagem, a ummodelo de interpretao, e a uma possvel experincia trgica da loucura, mas aoNietzsche, filsofo do poder, como ele dir na entrevista Sobre a priso, em 1975 e de quememprestar no apenas o nome, mas tambm as diretrizes fundamentais do mtodogenealgico. Assim, ao final da Primeira Conferncia de A verdade e as formas jurdicas,Foucault parecia montar uma oposio entre o marxismo e Nietzsche. importante ressaltarque Foucault no se refere, aqui neste texto, a Marx, mas sim ao marxismo, uma designaoao mesmo tempo muito geral e muito vaga, mas tambm muito especfica, se pensarmos nocontexto da poca, que inclui tanto o althusserianismo, como as correntes de esquerda nascidas

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  • 30/6/2014 Revista Cult Foucault entre Nietzsche, Marx e Walter Benjamin

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    sombra do Maio de 1968.

    De todo modo, nossa traduo no Brasil foi simples e rpida: Foucault, nietzschiano, contraMarx!

    A recepo do Vigiar e punir entre ns tambm no levou em considerao as referncias aoCapital ali presentes. Poucas e esparsas, elas pareciam, de fato, no ter nenhuma importncia,to fascinados ficamos com a anlise da constituio histrica do poder disciplinar. A questodo poder, sim, nos interessou exaustivamente, pois nos parecia uma chave interpretativa muitomais interessante, muito mais pertinente, para compreendermos o modo singular dosprocessos de dominao na sociedade capitalista. Raramente atentamos para a posioestratgica que a referncia a Marx possua no livro. Raramente percebemos que havia sempreuma diferena no discurso foucaultiano entre a meno a Marx e a meno ao marxismo.

    A publicao da Microfsica do poder, em 1979, aprofundava nossa desconfiana que, aospoucos, transformou-se em certeza: Nietzsche contra Marx, eis a questo! De fato, eminmeras entrevistas e passagens de aulas no Collge de France publicadas nesta coletnea,vemos Foucault voltar-se, com frequncia, contra o marxismo e algumas vezes, contra oprprio Marx. Dessas inmeras referncias, gostaria de destacar duas, pois elas me pareceminstrutivas da questo que estou colocando aqui.

    A primeira se encontra ainda na mesma entrevista, a qual me referi a pouco, Sobre a priso,de 1975 portanto. Aps ter feito a afirmao, hoje bastante conhecida e famosa, de que citavaMarx sem aspas e por isso Marx no era identificado em seus textos, justamente porque os quese intitulavam marxistas no liam Marx, escreve Foucault: impossvel fazer histriaatualmente sem utilizar uma sequncia infindvel de conceitos ligados direta ou indiretamenteao pensamento de Marx e sem se colocar em um horizonte descrito e definido por Marx. Emltima anlise, poder-se-ia perguntar que diferena poderia haver entre ser historiador e sermarxista. A discusso, diz Foucault mais adiante, no com/contra Marx, mas com os que sedizem marxistas e cuja regra do jogo no a obra, o pensamento de Marx, mas acomunistologia.

    A segunda se encontra logo no texto de abertura da Microfsica do poder, a entrevista intituladaVerdade e Poder, realizada em 1977. No incio da entrevista, Foucault procura explicarporque seus objetos de estudo eram desqualificados tanto do ponto de vista epistemolgico(eram objetos sem nobreza), quanto poltico (eram sem importncia). E ele aponta trsrazes: 1) a posio dos intelectuais marxistas, ligados ao Partido comunista francs (PCF), nointerior das instituies universitrias; estes, diz Foucault, queriam legitimar o marxismo,adaptando-o s regras tradicionais do ensino e da pesquisa na universidade francesa; nestaperspectiva, a medicina, a psiquiatria, no eram muito nobres nem muito srias, no estavam altura das grandes formas do racionalismo clssico; 2) havia um estalinismo ps-estalinista,que exclua do discurso marxista a emergncia do novo, a possibilidade de se colocar novasquestes, de tal modo que os marxistas continuavam, no que diz respeito discusso sobre acincia, presos ao discurso positivista do sculo 19: para certos mdicos prximos do PCF, apoltica psiquitrica, a psiquiatria como poltica, no eram coisas honrosas; 3) haveria apossibilidade igualmente de que o PCF procurasse silenciar a discusso sobre as formas dedisciplina da vida social, tendo em vista a realidade do Gulag, ou seja, sobre determinadascoisas melhor no falar, melhor ficar em silncio.

    Vemos o quanto essas duas referncias constituem posies diferentes no discurso de Foucault:de um lado, Marx incontornvel (o que no quer dizer, evidentemente, que ele no pudesseser ultrapassado, como o afirmava Sartre); mas, de outro, o marxismo uma teoria e umaprtica que se tornou incapaz de pensar. A radicalidade de Marx estaria assim perdida na suaposteridade.

    Mas poderamos dizer que esse diagnstico de Foucault desemboca numa espcie de niilismopassivo, ou seja, de uma imobilidade resignada diante do nosso tempo? Evidentemente queno. E aqui ento, eu gostaria de colocar uma hiptese, uma hiptese baseada, em especial, emtextos, entrevistas e evidentemente nos cursos no Collge de France, publicados a partir de1980. A hiptese a seguinte: h, na posteridade do marxismo, um momento do qual Foucaultse aproxima, um momento que lhe permite reatar com a funo crtica do marxismo. Estemomento o da primeira Teoria Crtica, a da chamada Escola de Frankfurt. Sabemos o quantoessas designaes gerais Teoria Crtica, Escola de Frankfurt podem nos enganar e nosiludir, como se tivssemos diante de um pensamento nico, comum, a reunir autores muitodiferentes. Marcuse, por exemplo, defensor de uma espcie de freudo-marxismo, que insiste emreiterar a relao entre capitalismo e represso da sexualidade, est fora da lista de Foucault.Novamente aqui, recorro a duas referncias para sustentar minha posio.

    A primeira, uma entrevista de 1983, na qual aps lamentar a ausncia da Escola de Frankfurtem sua formao, Foucault dir que, se tivesse tido a oportunidade de conhecer a Escola deFrankfurt, teria seu trabalho poupado, no teria dito tantas tolices e teria evitado tantos outrosdesvios, uma vez que aquela Escola j teria aberto vias muito mais promissoras para osmesmos problemas dos quais ele tratava. A segunda referncia um pouco anterior, de 1978 eest na Introduo edio inglesa de O normal e o patolgico, de George Canguilhem. Parasituar seu prprio trabalho e a inspirao de Canguilhem, Foucault ir associar dois modelos, oda Teoria Crtica alem e o da Histria das Cincias tal como praticada na Frana no sculo20, como as maneiras mais interessantes de dar continuidade famosa questo acerca dosignificado da Aufklrung: Na histria das cincias na Frana, como na teoria crtica alem, oque se trata, no fundo, de examinar, bem uma razo, cuja autonomia das estruturas trazconsigo a histria dos dogmatismos e despotismos uma razo, por consequncia, que s temefeito de livramento com a condio de que consiga se liberar de si mesma.

    Essa aproximao com os frankfurtianos no significa, entretanto, uma adeso completa,

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